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O que é Arquitetura Apropriada?

O que é Arquitetura Apropriada?

Ao falar de construção, é necessário citar a maior obra de estrutura metálica  – e outros elementos do mundo do aço – conhecida no planeta e que fica localizada no Rio Doce. Há relatos de que ao sair da atmosfera terrestre, as últimas coisas vistas na Terra são a Grande Muralha da China e o Rio Doce marrom.

A arquitetura é um mundo que mexe com a questão da renda, de valores subjetivos, questões comerciais e de poder. Ela, historicamente, sempre foi ligada aos poderes financeiros, políticos, religiosos e culturais, não é por acaso que a arquitetura produzida atualmente é extremamente impactante tanto no meio ambiental quanto no meio social.

Então para os arquitetos – que são tradicionalmente acostumados com esse modelo extravagante – refletir sobre um outro caminho para a arquitetura é um grande desafio, já que em sua formação acadêmica, eles são levados ao consenso de planejar coisas incríveis, esboçando plantas mirabolantes e projetos que desafiam a engenharia.

Mas a pergunta é: Por que? É realmente essencial fazer tudo isso?

É nesse ponto que vem a questão do traço. O arquiteto projeta e em termos de permacultura “planejar é dar direção aos fluxos energéticos de um espaço”. Mas cada risquinho feito no papel tem um peso e é preciso entender a relevância disso! O traço, muitas vezes, pode alienar e é importante entender quando o traço aliena e quando ele se deixa apropriar.

A Arquitetura Apropriada é aquela onde alguém pode se apropriar, ou seja: outrem olha, entende e consegue reproduzir. Então quem decide trabalhar com isso, deve entender que outras pessoas precisam apoderar-se de tal conhecimento e passá-lo adiante.

O desafio é pensar no traço em termos de impacto positivo, reduzir o impacto é muito importante, mas também há de se trazer coisas boas no meio interferido.

Qual é o impacto positivo do traço?

Pra entender isso, é indispensável entender o traço:

Pra que?”  – os propósitos desse traço.

Pra quem?”  – hoje a arquitetura é produzida pra quem?

Como?”  – como é produzida essa arquitetura?

Onde”  – onde é produzida essa arquitetura?

Quando?”  – quando será produzida essa arquitetura?

Em 2002, Tomaz Lotufo, começou a estudar permacultura, com grande interesse em fazer as coisas acontecerem, além de participar de cursos, ele gostava de “botar a mão na massa”. Mas com o tempo, Tomaz passou a entender que a bioconstrução e a arquitetura copiada trazem consigo coisas claras e importantes numa perspectiva ambiental de trabalhar com recursos locais, reduzir o impacto e tentar fazer o melhor com o mínimo que se tem.  Existe também uma questão social muito forte: quando você faz, você se apropria. Quando todos fazem, todos se apropriam.

A arquitetura na maioria dos casos, é vista hoje como um objeto, uma coisa, não como algo que se manifesta. Quando se olha uma imagem como esta:

É possível ver uma casa ou um chalé, mas talvez não seja uma casa ou um chalé. Ao olhar a imagem, não se pode ver esse ser se manifestando, então, em termos de apropriação, é necessário mais.

É preciso olhar a casa/chalé numa dinâmica processual, ver as pessoas interagindo com ela, construindo e/ou morando, só assim se compreenderá como essa casa/chalé se manifesta.

Então qual é o traço que nos permite olhar o elemento como um processo?

Ao olhar uma árvore, pode-se olhar a árvore como uma coisa ou a árvore nesta dimensão:

Acima, é possível vê-la como um processo, como um ser manifesto, como um grande acontecimento.

Então qual é o traço que faz com que as edificações se manifestem?

Há de se entender que não é preciso trabalhar a casa ou a cidade como um organismo vivo, no fim o objeto é organizado por uma série de órgãos que estão interconectados e assim a coisa pode se manifestar.

Um exemplo é uma cisterna. Uma cisterna sozinha é uma coisa:

Uma cisterna relacionada passa a ser mais cisterna:

Uma cisterna relacionada cuja água utilizada nela passa por um tratamento biológico, se torna ainda mais cisterna e ela faz parte da casa e a casa tem uma série de ciclos, uma série de órgãos e esses órgãos se organizam graças às manifestações que são estabelecidas na casa.

Falar em arquitetura apropriada é falar da matéria prima, mas também é falar de todos os sistemas energéticos que envolvem essa casa de maneira que ela possa se manifestar.

 

Repare neste menino, seu nome é Martín:

Atualmente existe uma geração de crianças que não sabem que seus pais já chamaram “resíduos sólidos orgânicos” de “lixo”. Martín é uma delas e está crescendo em uma casa onde os resíduos sólidos orgânicos vão pra uma composteira e depois viram húmus – fezes de minhoca – que por sua vez vai para terra e vira comida. A casa, ao se manifestar, muda a cultura, o que é necessário para mudar o mundo! Então pensar nela como organismo vivo é também pensar na “casa viva”, ou seja, casa que promove a vida.

Artigo baseado na palestra de Tomaz Lotufo no Simpósio Latino de Bioarquitetura e Sustentabilidade realizado pelo Instituto Pindorama, em 2016.

Tomaz Lotufo — Professor do MBA em Construções Sustentáveis, INBEC / UNIP e da pós-graduação “Arquitetura, Cidade e Sustentabilidade”. Atua como arquiteto no escritório 2 Bio + Arquitetura, onde tem como foco Arquitetura de baixo impacto ambiental e projetos comunitários. Educador.

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